terça-feira, 22 de agosto de 2017

Palhaços, dimensões paralelas e outras coisas mais!


Eu vi Bingo e gostei!

“Bingo, o Rei das Manhãs” tem direção de Daniel Rezende, editor de nada mais nada menos que “Cidade de Deus”. Conta um período da vida de Arlindo Barreto, um dos interpretes do palhaço Bozo no Brasil.

O filme é repleto de méritos, a começar pela produção e direção de arte, a cargo de Cássio Amarante. A paleta de cores em tom sépia dá uma sensação nostálgica e acolhedora. Cenários, figurinos e objetos de cena remetem eficazmente à década perdida. Lembra muito o trabalho desenvolvido na série da HBO, “Magnífica70”.

O casamento se completa com a exímia trilha sonora, totalmente contundente com a época retratada e amalgamada ao contexto, como exemplo do recente “Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)”, funcionando quase como personagem da história.

A fotografia é caprichada, passando longe do vício brasileiro dos três pontos, usado à exaustão nas novelas.

Quanto a Vladmir Brichta, que sempre achei meio canastrão, faz um trabalho maravilhoso. Talvez porque seu overacting se ajuste à personagem.

Direção e produção se complementam de maneira competente fazendo o que avalio como um dos melhores filmes nacionais que já assisti.

Considero um filme competente quando saio do cinema com a sensação de ter sido transportado para uma época, uma cena ou uma história.

Poderia debater uma série de outros pontos, mas o que mais me intrigou ao assistir Bingo foi a nostalgia de um tempo em que o politicamente correto não existia.

Lembro-me das roupas mínimas com que a Xuxa apresentava seu programa. O auge pra mim, ainda criança, foi ouvir às 10h da manhã aquela música “Pipi Popô”, enquanto a loira comandava uma gincana de meninos contra meninas. Eu desliguei a TV naquele dia com vergonha.

Então imagine um Bozo apresentando seu programa totalmente chapado de cocaína?!



A vida na sociedade dita civilizada tende a ser pautada pelo senso comum e por isso repleta de hipocrisias.

Desde cedo aprendemos e nos acostumamos com as mentiras.

Toca o telefone, a criança prestativa atende. É a vizinha chata, a criança tenta passar o telefone para um adulto responsável, mas o que ela ouve é um pedido indecoroso: “Diz que a mamãe saiu”.

Mais de uma vez já aconteceu a velha anedota, a criança volta ao telefone e diz, inocente: “Minha mãe mandou avisar que não está”.

Outras distorções são aprendidas, quando a criança vê uma pessoa muito gorda, ou muito velha, ou muito estranha, aponta o dedo e se inflama. O adulto responsável ensina: “Não aponta que é feio!”

A criança entende: Não fale o que sabe. Não fale o que sente. Não fale a verdade. E assim passa a desconfiar dos adultos. Não educamos. Apenas reprimimos.

De tempos em tempos a hipocrisia social atinge níveis mais intensos resultando em distorções e censuras excessivas, desproporcionais. Foi assim durante a sagrada inquisição. Foi assim com o AI5. Recentemente surgiu uma anomalia semelhante batizada de “politicamente correto”.

Não existe contradição maior do que uma política correta. A história tem demonstrado que o exercício da política não admite a ética. Não no nível evolutivo na sociedade dita civilizada.

Então, nestes tempos em que a hipocrisia mais uma vez impera, surge como bálsamo esse filme, essa memória.

Nostalgia similar me envolveu ao assistir a série “StrangerThings”. Muitos já vinham me recomendando esta série, mas só agora, de férias, pude investir nela e me senti muito recompensando.

A série trata de um grupo de crianças que se dedica a encontrar um amigo desaparecido. Telecinese, telepatia, dimensões paralelas e uma horda de referências à década perdida tornam a atração incontestável.

É interessante imaginar que um bando de crianças consegue fazer de bobo toda uma organização governamental, acobertando e resolvendo os mistérios à sua maneira. As crianças da série pouco contam com os adultos, simplesmente por desconfiar deles.

Os adultos não sabem lidar com a verdade.

Aquilo que não admitimos acaba extraditado para dimensões paralelas, mas não deixa de existir. Em algum momento o que foi encoberto ressurge, muitas vezes de forma grotesca e alarmante, a fim de não ser renegado.

Os monstros precisam ser confrontados, a verdade aceita. Daí progredimos.

O maior exemplo de grotesco é o próprio palhaço, sempre presente nas grandes cortes e único capaz de falar todas as verdades sem ser punido. O palhaço representa esse ser multidimensional, remete à pureza da infância, a um tempo em que as mentiras não existiam ou não tinham função.

Sinto falta de um tempo em que podíamos rir de nossas esquisitices. Temo quando os palhaços começam a ser reprimidos. Nunca se sabe que tipo de monstros podem surgir de outras dimensões.

E o que seria do brasileiro sem sua irreverência?!




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Quimera ou Cosmoconsciência?


Reflexões sobre a Oficina Experimental de Cinema Digital
do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra - SP


por Renato Guenther
05.01.2017


 


  O cinema é uma arte grupal em sua gênese (MASCARELO, 2006) e só se faz possível numa prática coletiva, pois exige trabalho em equipe, onde todos os componentes são de fundamental importância.

  Atuação, cenografia, fotografia, música, edição, entre outros recursos, se mesclam na obra final que se convencionou chamar de filme (ARONOVICH, 2014). O próprio cinema, como arte e produção estética, se mostra uma quimera ao reunir aspectos de diferentes artes antecessoras.

  A Oficina Experimental de Cinema Digital do CECO Taboão surgiu em 2009 com a proposta de familiarizar os participantes ao uso das técnicas e tecnologias que envolvem a produção do cinema digital e permitir a expressão de seus anseios, sentimentos e perspectivas através da confecção conjunta de filmes de curta-metragem em vídeo digital, passando por todas as etapas que envolvem o processo. Em paralelo são estudados e discutidos a história do cinema no Brasil e no mundo, os vários tipos de cinema, e ainda exercitadas uma série de habilidades, desde criatividade, foco, atenção, organização, até comunicação, expressão corporal e principalmente convivência em grupo (FONSECA; GUENTHER, 2016).

  A cada ano, durante os primeiros encontros da oficina, são discutidos temas de relevância para os participantes, gêneros e estilos de linguagem. São selecionados trechos de filmes, produções de audiovisual, livros e histórias em quadrinhos para referências de arte, enquadramento, linguagem e estilo. Em conjunto escrevemos o roteiro, dividimos a equipe entre atores, atrizes, assistentes de direção e produção, equipe de som, arte e figurino. São feitos ensaios e marcações no cenário que sempre partem das possibilidades oferecidas pela estrutura do CECO Taboão. Programamos os últimos 4 ou 5 encontros para as gravações.

  O equipamento e o trabalho de captação de sons e imagens ficam a cargo da Escola de Cinema do Latin American Film Institute (LATIN AMERICAN FILM INSTITUTE, 2016). A partir da parceria voluntária com esta instituição promovemos o intercâmbio de conhecimentos e perspectivas. Em troca, oferecemos a certificação na experiência voluntária de terceiro setor aos profissionais e estudantes da instituição que se dispõe a apoiar o projeto. Montagem e edição ficam a cargo do oficineiro. Em parceria com outros setores e secretarias do município são produzidas cópias da obra finalizada e distribuídas entre todos os participantes.

  Desde 2009, já nasceram 7 produções de curta-metragem em vídeo digital e uma oitava produção já se encontra em processo de finalização. Veiculadas em concursos e festivais culturais e pela internet através do blog da oficina, concorremos a premiações e divulgamos os trabalhos realizados em diversos Estados e municípios (OFICINA DE CINEMA DO CECO TABOÃO, 2016).

  Ao longo da experiência, conquistaram-se aliados e admiradores através da candura e do encanto inerentes ao projeto e ao passo que surgem os resultados. Porém, a maior realização se faz na franca constatação dos progressos cotidianos dos participantes à medida que se demonstram capazes de expressar e materializar seus anseios. Ao se reconhecerem autores, capazes de criar algo conjuntamente e perceber seu trabalho projetado e contemplado por diferentes audiências, surgem sentimentos de valor próprio, pertencimento e maior integração social, o que colabora para a promoção de saúde como um todo (DIONISIO; YASUI, 2012).

  Mas não só o usuário dos serviços de saúde mental do município se torna beneficiado. Ao longo da experiência viemos percebendo também o processo de sensibilização que ocorre com os profissionais, técnicos e voluntários que se doam ao projeto. Também as diferentes audiências que tem oportunidade de conhecer esse trabalho tendem a se comover com o tema da inclusão social do diferente através da arte (CANAL SAÚDE NA ESTRADA, 2016). De fato percebemos um processo de questionamento e conscientização a cerca das fronteiras que delimitam arte e saúde, público e privado, o são e o insano.

  Assim como o cinema, esta oficina já nasceu marcada por hibridismos. Constitui um fenômeno que carrega em si características distintas de diferentes espécies. Produto da arte e das linguagens estéticas, encubada por um equipamento de saúde pública municipal, mas em parceria com uma instituição de ensino particular. Mescla formas, conteúdos, histórias e pessoas em prol do objetivo comum de materializar sonhos.

  Quimera, não como o monstro da mitologia grega, parte leão, parte cabra, parte serpente, que cuspia fogo e aterrorizava aldeões (BRANDÃO, 1987). Uma anomalia, produto incidental do estupro da necessidade de dar voz aos inoportunos e da carência de recursos e condições.

  Sonho que se sonha junto (SEIXAS, 1974), vem transpassando fronteiras e se mostrando forte como a realidade.

  No CECO Taboão, cada filme produzido é uma gestação coletiva. Durante a criação de roteiro, personagens e cenários, cada participante colabora a seu modo, respeitado em suas limitações e estimulado em suas habilidades, de modo que ao final não se pode atribuir o filho a um único pai.

  Quanto aos recursos utilizados, partimos inicialmente das disposições do equipamento público municipal. Mas cada participante acaba colaborando, trazendo peças do próprio guarda-roupas para compor o figurino ou da própria moradia para compor o cenário. Muitas vezes aproveitamos sucata ou objetos desprezados por outros, fazendo o melhor uso possível do que temos, alinhando as possibilidades de cada indivíduo com o tempo, espaço e até as condições climáticas disponíveis.

  Inicialmente, quando Nise da Silveira fez uso da arte em asilos manicomiais, também sua ousadia e inovação foram vistas com incredulidade (BERLINER, 2016). Diante de tanto ardor e dedicação, enfrentando tantas limitações das mais diversas ordens, fica claro que não se trata de algo fácil. Mas se faz imprescindível perceber cada produção como algo lúdico, divertido: causa e conseqüência da necessidade humana de convivência em grupo.

  Assim, alguns eixos fundamentais se delinearam:

- Binômio Arte e Saúde

- Parcerias público/privadas

- Gestações grupais

- Eficiência : “fazemos o melhor com o que temos”

- Diversão : “se não for gostoso não vale a pena”

- Inclusão

  Mas se esta oficina não se compõe de meros retalhos ao modo dum monstro como fez o personagem de Mery Sheley no romance Frankenstein (ARAUJO, 2016), o que fermenta seu trabalho?

  Segundo Vieira (1999), cosmoconsciência é a condição ou percepção interior da consciência do Cosmos, quando a consciência sente a presença viva do Universo e se torna una com ele. O termo é um neologismo para uma condição descrita anteriormente por outro ilustre acadêmico: Richard Maurice Buke.

  Buke foi, entre outras ocupações, psiquiatra e dirigente de asilos para insanos no Canadá, nos idos de 1870. Reformista e inovador no tratamento de alienados, nutria estreita admiração pelo poeta americano Walt Whitman, de quem foi amigo e biógrafo (HARRISON, 1990).

  Em 1901 teria publicado sua grande obra, “Consciência Cósmica” em que trata do fenômeno impar que deu nome a seu livro.

  Falando de maneira simplista, o fenômeno consistiria numa espécie de expansão de percepção e entendimento, aliado a manifestações físicas bastante marcantes. O estado máximo de consciência do ser humano em que ressignifica sua experiência de existir, percebendo além das fronteiras aparentes. Algo a não ser narrado, mas experimentado e que o próprio autor tentou descrever assim:

  Entre outras coisas em que não chegou a acreditar, percebeu e compreendeu que o Cosmo não é matéria morta e sim uma Presença viva; que a alma do ser humano é imortal; que o universo é tão bem estruturado e ordenado que, sem qualquer possibilidade de erro, todas as coisas trabalham juntas para o bem de cada uma delas; que o principio fundamental do mundo é o que chamamos de amor e que a felicidade de cada um é a longo prazo absolutamente certa. (BUKE, 1996, pág. 43)

  Tal fenômeno equivaleria ao que as mais diversas correntes místicas definiriam como iluminação (WHITE, 1997). Estado de percepção de que estamos todos ligados e funcionando em harmonia com uma vontade, que ao mesmo tempo é a vontade de todos e uma vontade maior: transcendente.

  Para além do misticismo, Buke descreve a consciência cósmica como um estado a que o ser humano evoluirá naturalmente assim como evoluiu um dia de uma consciência simplista para a autoconsciência.

  Porém não é interesse deste artigo navegar em águas turvas, mas traçar um paralelo entre o fenômeno descrito por Buke e a prática observada na Oficina Experimental de Cinema Digital do CECO Taboão, pois os trabalhos relacionados aos cuidados com os mentalmente transtornados vêm se valendo cada vez mais de diferentes práticas e olhares, intersetoriais e multiprofissionais (AMARANTE, 2008).

  Segundo Lopes (2015), em um Centro de Convivência, o conceito de “nós” é diferente do conceito de eu e o outro, “implica como um abraço probiótico que mistura perfumes dos corpos distintos quando esse abraço se dá.” (LOPES, 2015, pág. 28)

  Quando nos percebemos borrando fronteiras (TAMIS, 2016) entre arte e saúde, publico e privado, são e insano, cidadania e exclusão, sonho e realidade, convém questionar se as fronteiras realmente existem ou se são mera reação à inconsciência de um sistema maior. De fato, como equipamentos e sistemas que deveriam funcionar em rede, percebemo-nos como desbravadores deste estado de consciência maior, não criando um monstro, mas trazendo luz para as possibilidades existentes, amadurecendo e evoluindo na prática de saúde mental: expandindo consciências.

  Nos interessa portanto questionar e refletir se esta experiência não representaria a manifestação espontânea de ao menos um sussurro do processo de transcendência da ilusão de separação (OSHO, 2006) determinada pelo ego analítico humano.

Existimos mutuamente, somos membros uns dos outros.
A consciência é um vasto oceano e ninguém é uma ilha.
Nós nos encontramos e nos fundimos uns nos outros.
Não há fronteiras.
Todas as fronteiras são falsas.
(Tilopa em: OSHO, 2006, pág. 230)






REFERÊNCIAS

AMARANTE, P. Saúde mental e atenção psicossocial. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2008.

ARAUJO, A. F. O monstro de Frankenstein: uma leitura a luz do imaginário educacional. Revista temas em educação, v. 23, n. 1. João Pessoa: jan.-jun. 2014. Disponível em: http://periodicos.ufpb.br/index.php/rteo/article/viewFile/18790/11416 . Acesso em: 27 out. 2016. 

ARONOVICH, T. Fazendo Cinema, São Paulo: Editora Criativo, 2014.

BERLINER, Roberto. Nise: No Coração da Loucura. Filme. Imagem Filmes, Brasil, 2016.

BRANDÃO, J. S. Mitologia Grega vol. III. Rio de Janeiro: Vozes, 1987.

BUCKE, R. M., M.D. Consciência Cósmica. Paraná: AMORC, 1996.

CANAL SAÚDE NA ESTRADA, Fiocruz. SP: Taboão da Serra e Campinas, programa exibido em 05/10/2015. Disponível em: http://www.canal.fiocruz.br/video/index.php?v=SP-Taboao-da-Serra-e-Campinas-CSE-0080 . Acesso em: 27 out. 2016. 

DIONISIO, G. H.; YASUI, S. Oficinas expressivas, estética e invenção. In:  AMARANTE, P.; NOCAM, F. (Org.). Saúde mental e arte: práticas, saberes e debates. São Paulo: Zagodoni, 2012, p.53 – 65.

FONSECA, E.; GUENTHER, R. Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra, In: V Prêmio David Capistrano de Experiências Exitosas na Área da Saúde 2015. Boletim do Instituto de Saúde, Vol. 16, sup., novembro de 2015, p.37 - 40. Disponível em: http://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-saude/homepage/bis/pdfs/bis16suplemento_web.pdf  . Acesso em: 27 out. 2016. 

HARRISON, Jonh Kent. Beautiful Dreamers. Filme, NFB, Canadá, 1990.

LATIN AMERICAN FILM INSTITUTE. Site institucional. Disponível em: http://lafilm.com.br  Acesso em: 27 out. 2016.

LOPES, I. C. Os Centros de Convivência e a Intersetorialidade. In: Centros de Convivência e Cooperativa, Cadernos Temáticos, São Paulo: CRP - SP, 2015, p.27 - 31.

MASCARELO, F. (org.). A história do cinema mundial, Campinas (SP): Papirus, 2006.

OFICINA DE CINEMA DO CECO TABOÃO. Blog da Oficina Experimental de Cinema Digital do Centro de Convivência e Cultura de Taboão da Serra - SP. Disponível em: http://cinececo.blogspot.com.br . Acesso em: 27 out. 2016.

OSHO. Tantra, a Suprema Compreensão, São Paulo: Cultrix, 2006.

SEIXAS, R. Prelúdio. Música, álbum: Gita, Lado B, Faixa 4. Gravadora: Philips, Brasil, 1974.

TAMIS, P. Rede dos Fazedores de Arte na Atenção Psicossocial, artigo apresentado durante a mesa “Arte, Cultura e Saúde Mental”. In: 5º Congresso Brasileiro de Saúde Mental. São Paulo: ABRASME, 2016.

VIEIRA, W., M.D. Projeciologia: Panorama das Experiências Fora do Corpo Humano. 4ª edição. Rio de Janeiro: Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia, 1999.

WHITE, J. (org.). O mais elevado estado da consciência. 10ª edição, São Paulo: Editora Cultrix/Pensamento, 1997.





domingo, 21 de fevereiro de 2016

Desmembrando-se das realidades! (contém spoilers)


Intriga-me a percepção do antagonismo na vida.

Eu não creio em crises.

O inimigo, o problema, o percalço, o desafio, o difícil.

Uma situação pode ser classificada como difícil quando ainda não tenho familiaridade com ela, quando me faltam as habilidades necessárias para sua dissolução.

Para a criança que engatinha, o difícil é conseguir andar.
Para o estudante secundarista, o difícil é a matemática científica.

Ainda falta o exercício, o entendimento, a compreensão. Falta o treino da habilidade. Falta a maturidade. É difícil, mas não é impossível.

O treino das habilidades necessárias para tornar o difícil em algo trivial pode ser encarado como um desafio, uma aventura, uma diversão. É gostoso crescer, aprender, desenvolver-se, evoluir. Não há nada de amedrontador em evoluir. Ou pelo menos não deveria haver.

Então de onde vem o terror, o medo, o drama que torna a passagem natural da evolução num martírio de dor, sofrimento e lamentação?

Basta um pouco de observação para entender que, para a vida, harmonia tem relação com o movimento, o orgânico, o curvo, o arredondado.

Tudo no cosmos está em movimento, intercalando momentos de contração e expansão. Tudo se transforma e evolui. É a natureza da vida, do cosmos, do todo.

Mas se o natural é movimento e evolução, se as novidades existem para que nos adaptemos a elas desenvolvendo novas habilidades, por que nossa mente tende a encarar os desafios como dificuldades?

Nossa mente tem uma programação que prefere o cômodo, o padronizado, o uniforme, o reto, mas não necessariamente o harmônico.

Tudo que nos tira do conforto de nossas certezas encaramos com inimizade, dissabor e medo.

Que programação perturbadora é essa?

Surge então a figura do demiurgo, o “deus falso”, o “eu limitado”, criador de realidades frágeis e incompletas.

Recentemente assisti ao filme Snowpiercer (2013 - aqui horrendamente intitulado como “O Expresso do Amanhã”) que retrata os últimos remanescentes da espécie humana tentando sobreviver em um trem expresso deslizando sem parar no que seria um planeta Terra congelado, dominado por uma era do gelo artificial.

                         
O trem é uma metáfora da eterna distribuição da humanidade, em que a maioria desvalida e oprimida sobrevive aos abusos de uma minoria abastada. Uma verdadeira ditadura de classes: aos ricos, cabines luxuosas e sushi de salmão; aos pobres, amontoados na calda do veículo, ração a base de insetos. É também uma aula de marxismo. A solução está na revolução. Vemos Chris Evans interpretando o líder operário (óps!), digo, revolucionário, numa tentativa de tomar o comando da locomotiva e libertar o povo da opressão capitalista. Porém, é no encontro com o maquinista que vemos a fragilidade do sistema e ao mesmo tempo a sedução do poder. Isso porque nosso líder operário não se dá conta de que suas pretensões eram previstas e até planejadas pelo próprio maquinista do trem. A revolução é um embuste necessário para prover um rebbot de manutenção do sistema (algo parecido com a revolução de Zion e o encontro entre Neo e o Arquiteto na trilogia Matrix). A verdadeira saída mesmo é tirar o trem dos trilhos, destruir a ilusão de ordem e caos, desmembrar-se da falsa realidade, solução perceptível apenas aos que tem olhos de ver e ouvidos de ouvir.


Da terra congelada continuamos no universo dos apocalipses climáticos e chegamos a Interestelar (2014). Vemos nosso planeta desolado por pragas. Incapacitados de produzir alimentos, aos homens resta apenas procurar outro planeta para dizimar. Matthew McConaughey interpreta o astronauta que lidera uma expedição por um buraco negro, ou buraco de minhoca, até outro quadrante do universo com três novos planetas em condições promissoras para a manutenção da vida. Enfrenta toda uma série de percalços até ser sugado para a singularidade e transportar-se para um ponto distinto do espaço-tempo. Lá descobre-se agente das causalidades que perscrutaram seu destino. Novamente vemos a sombra do demiurgo tentando premeditar e planejar com seu senso de percepção limitado. Só na humildade diante do desconhecido pode o homem assumir o poder divino de conduzir o próprio destino, permitindo-se fluir com o infinito.

O problema do demiurgo está na arrogância de crer-se conhecedor do todo. Coloca-se soberano, acima do inconsciente que na verdade desconhece e teme. Articula com minúcia de detalhes a partir do universo conhecido, criando a própria realidade. Mas a grandiosidade da vida abrange também o desconhecido. A vida age sabiamente e escreve sempre certo sem precisar de linhas. Para o demiurgo, tudo que sai da linha lhe parece errado. Luta para defender seu reino frágil, repetição após repetição, até que um dia seu orgulho se esgote e volte a se colocar novamente a serviço da vida como um ser inteiro, percebendo-se parte do todo verdadeiro ao invés de reinar apenas sobre fragmentos.

Humilde, rendido a vida, pode então canalizar a sabedoria máxima, a força búdica ou crística, experimentando a consciência cósmica.

Esse exercício de humildade vemos no relato de Alejandro Jodorowsky no documentário Dune (2013). Todo esmero e minúcia dedicados ao maior filme de ficção científica que jamais foi filmado. Mas a lição está lá, na sua própria versão da história, na força crística finalmente revelada.

Sair do sistema é desmembrar-se da realidade criada por um deus falso. Esse deus habita nossas mentes como uma programação.

No filme Garoto 7 (Boy 7, 2015) vemos essa tentativa de acorrentar os desviados. Essa força gravitacional habita a sociedade e as culturas atraindo todos os seres para baixo. Mas é ao alto que se destina nosso espírito. Não precisamos extrair cirurgicamente o chip magnético que nos foi implantado, pois ele não é físico. Ele é frágil como uma crença infundada. E quando enfrentamos essas crenças infundadas, nossa consciência se expande.
                           
As crises de verdade não existem. São momentos de reboot do sistema, oportunidades para desmembrarmo-nos das falsas realidades e expandir nossas consciências.

A “crise” pode sim, momentaneamente, diminuir o poder de compra de meu salário, prejudicar minha liberdade de ir e vir, amedrontar-me quando estou desmemoriado, mas ela não existe nem é real, pois não pode jamais se abater sobre meu espírito.


domingo, 17 de maio de 2015

Penny Dreadful

O que fazer com os demônios que co-habitam seu interior?

Sou fã de duas séries especiais que tento acompanhar com afinco. Uma delas é The Walking Dead, sobre as agruras de um grupo de sobreviventes em um futuro pós-apocalíptico dizimado por uma praga zumbi.  A outra é The Game of Trones, sobre os jogos de poder pelo trono em um mundo fantástico de feiticeiros, dragões e cavaleiros medievais.

As duas séries são aclamadas e acompanhadas no mundo todo. Até pelo tempo e sentimentos que nos mobilizam, tento evitar séries e novelas. Mas quando uma produção te pega, aí é fogo! Você não consegue ficar sem acompanhar, espera ansioso pelos próximos episódios, etc. etc. e etc.

Os estúdios americanos têm investido pesado em series nos últimos anos e parte do investimento se deve a serie Lost, que rendeu milhões com seus mistérios mal explicados.

Fato que as séries acabam sendo uma opção mais lucrativa que as produções cinematográficas e tem sido feitas com o mesmo capricho.

Nessa espera entre os intervalos de uma série e outra que conheci Penny Dradful, uma produção americana de época, com o clima soturno da Inglaterra vitoriana, repleta de personagens da literatura de terror como vampiros, lobisomens, bruxas, caçadores de monstros, Frankstein, etc.   

Nostálgico, lembro de minha época de Buffy, a Caça-Vampiros, mas com uma produção muito mais elaborada, interpretações marcantes, muita sensualidade e tramas melhor elaboradas. Só a presença de astros e estrelas como Timothy Dalton e Eva Green já valorizam a obra.

O enredo também tem o brilhantismo de repetir de forma exitosa a iniciativa de Allan Moore ao misturar personagens de obras distintas como na HQ A liga dos Cavalheiros Extraordinários.

Mas o que tem me intrigado em Penny Dreadful é a habilidade de abordar um tema tão interessante como o do monstro interior.

Recomendo.


domingo, 1 de março de 2015

É sensual...


Sou psicólogo por formação e adoro o que faço. Mas sempre dizia que se não fosse psicólogo, seria fotógrafo de mulher pelada. Afinal, por que impor condições, não é mesmo???

Participei do workshop CruaFlor, com Alberto Prado e Susi Godoy, duas das figuras mais expressivas quanto a fotografia sensual no Brasil atualmente. Os dois, cada um a sua maneira, fazem trabalhos dignificantes com as formas femininas. Proporcionaram-me uma experiência realmente marcante, a ponto de me fazerem acreditar que possa ousar lançar-me num projeto de nu fotográfico em breve.

Foi emocionante. E alem de tudo conheci pessoas especiais.



Seguem abaixo alguns dos resultados da experiência:

Do escondido ao revelado, formas femininas ondulam em mimetismo com o ambiente, um felino oculto como um sussurro na noite. Eis meu ensaio no workshop CruaFlor com a modelo Thays Vita. Alberto Prado e Nicholas Modesto figuram como modelos incidentais. A câmera usada foi uma Olympus VG120. As imagens não passaram por nenhum tipo de tratamento. Numa palavra: lisérgico.



























































Então uma gata brava é jogada sobre a cama. De repente se aninha, sente-se segura e se extravasa em ternura. Essa é Bia Machado, sob as lentes da Olympus VG120 que peguei emprestado de minha mãe para os ensaios do workshop CruaFlor.


























Mais Bia Machado, desta vez com as lentes do celular Samsung Galaxy GT-I5500B. Nenhuma das imagens passou por tratamento.











Juro que tentei ser econômico com a publicação de todas essas fotos, mas é duro fazer cortes quando a gente gosta de tudo. Talvez meu senso estético seja deturpado, medíocre, sei lá, mas gostei muuuito dos resultados que alcancei. Quem sabe investindo um pouco mais...